A Dama que Viaja pelo Planeta

A Dama que Viaja Pelo Planeta

 

Aeris - FF VII

Aeris – FF VII

Prólogo

Na água…
Aeris estava afundando. Imóvel com a expressão facial de quem está apenas dormindo, ela aos poucos afundava no lago frio e sereno. A trama de luz criada pelo movimento das águas na superfície dançava sobre seu corpo inerte. Era como se tentasse segurá-la.

Seu belo rosto não poderia mais mostrar aquela expressão cheia de energia. O sentimento de felicidade e diversão que contagiava a todos em sua volta, o carinho que ela demonstrava aos fracos, e as infinitas lágrimas que ela derramou em segredo… Nenhum deles voltará a aparecer.

Seu corpo ficará em silêncio por toda a eternidade.

Todavia, isso não significou o fim de Aeris. Ela estava vendo tudo. Não através de seus lindos olhos verdes, mas através de sua alma… Ela via tudo através de um corpo desencarnado cheio de energia vital, quase que formando um novo corpo físico. Ela observava, enquanto a superfície do lago se afastava. Ela observava, enquanto formas humanas a fitavam do enevoado outro mundo. Ela observava o rosto de Cloud, que demonstrava estar com o coração partido pela tristeza de perdê-la, o ódio e revolta por não ter conseguido impedir que ela fosse levada.

“Não se culpe. Não há com o que se preocupar. Tudo ficará bem, mesmo que o meteoro caia. Então não se deixe levar por esses sentimentos. Apenas pense em como você pode ser você mesmo”.

Ela tentou dizer, mas seus lábios não se moviam. Não havia magia que a permitisse alcançar Cloud enquanto ele desaparecia ao longe. A luz que vinha da superfície do lago ficava fraca e distante. Aeris afundava lentamente nas ruínas dos Cetra, a Cidade Esquecida. Aeris, a última descendente dos Cetra, cumpriu sua missão de proteger o Planeta. O último lugar que ela deveria alcançar não chegava, não importava o quanto ela afundasse…

 

 

Capítulo 1

Sim. Não importava o quanto ela afundasse.

Ela havia chegado ao fundo do lago. Mas ainda assim, Aeris continuava a afundar.

Seu corpo físico, apenas alguns minutos depois de perder sua vida, agora estava no fundo do lago, coberto da vegetação submarina típica. É a triste prova de como ela foi separada de sua curta vida de vinte-e-dois anos para sempre. A matéria que foi separada do espírito lentamente retornava à Grande Terra nas águas puras.

A consciência de Aeris prosseguia para o próximo nível.

Nada havia mudado quando ela respirou levemente na poeira que a cercava. Aeris continuava a afundar no pesado caminho da precipitação. A única coisa que ela conseguia ver era uma grande escuridão… Mas mesmo sem luz, era um mundo calmo, acolhedor, onde ela não se sentia sozinha.

Ela logo percebeu que aquilo não era poeira ou lama. Seus sentidos se ajustaram para que ela pudesse sentir as coisas à volta. Seus cinco sentidos estavam num patamar mais elevado agora, tanto que ela podia sentir a verdadeira natureza dos objetos.

O mundo que ela via agora não era de trevas.

Ela estava cercada por uma fraca luz esverdeada. Ao mesmo tempo, ela reconhecia o que via. Energia que se dividia em milhares, não, milhões de fluxos envolviam e circulavam cada parte do Planeta. O raio de luz que a cercava era um desses fluxos. A quantidade de energia Mako que o Planeta possui é algo muito além da imaginação humana e não pode ser descrito com palavras ou imagens.

Aeris sentia como se o Planeta pulsasse. Ela podia ver o brilho do Lifestream que estava em toda parte. Ela reconheceu a fonte de vida para a qual todos retornam.

Era um lugar cheio de energia, onde incontáveis almas se uniam com seus conhecimentos e experiências. Até mesmo suas memórias eram independentes deles. Mas Aeris estava “inteira”. Ela mantinha sua individualidade no lugar onde as mentes dos mortos se espalhava e se partia, mantendo a personalidade que tinha quando era viva. Ela manteve a consciência de Aeris Gainsborough, que ela fora até pouco tempo, mesmo agora, no Lifestream.

Ela não sabia o que iria acontecer.

Como a última Cetra viva, ela tinha a missão de manter a riqueza da Grande Terra durante sua vida. Aeris falou com o Planeta. Falou com a consciência que era parte do Lifestream. Ela então soube que a morte não é o fim da vida.

A maioria dos humanos imagina que a morte significa se tornar um “nada”. Ter a consciência engolida pela escuridão, para jamais despertar novamente, um vazio que não pode ser compreendido. Eles imaginam que a morte é a aniquilação total. É por isso que os humanos temem a morte. Eles têm medo de perder sua existência. Mesmo que eles entendam que são uma raça de vida curta, muitos tentam evitar isso. Mesmo aqueles que chegaram a uma idade elevada após uma vida compensadora.

Aeris sabia que a morte não significava ser aniquilada. Ela até sabia sobre um mundo que um Cetra alcançaria no final, após cumprir a missão recebida para com o Planeta. Foi por isso que ela aceitou a morte sem medo, mesmo quando ela soube que a hora estava chegando. Ela cumpriu sua missão, ciente das conseqüências, sem nenhum medo. Seu coração estava em paz, embora os humanos, que perderam a capacidade de falar com o Planeta há muito tempo, digam que ela morreu sob circunstâncias não-naturais. Ela não tinha remorsos de querer estar viva, porque cumpriu sua missão.

Mesmo assim, ela estava triste. Seu coração sofria.

Todos os companheiros com quem ela viajou, as primeiras pessoas que se aproximaram dela, a mão que a acolheu e criou durante quinze anos, Elmyra, as pessoas que ela não conhecia muito bem, as pessoas que ela poderia vir a conhecer no futuro, as pessoas que ela poderia ter conhecido… É fato que ela não poderia mais estar entre os vivos.

Aeris também sabia que a tristeza também estava com aqueles que ela deixou para trás. Eles não sabiam que ela ainda existia como alma. Eles não precisavam saber. Afinal, mesmo que eles soubessem, a tristeza não seria curada pela verdade. Mas pensar na dor de todos fazia Aeris sofrer ainda mais.

Aeris sofria ainda mais quando pensava em Cloud.

Ela também tinha bons sentimentos por ele. No início, ela pensou ver nele semelhanças com seu primeiro amor. Mesmo assim, sua aparência, voz e personalidade não eram iguais e a faziam pensar nele como uma pessoa misteriosa… Mas isso logo não importou mais. Ela o amava muito mais que seu primeiro amor. Cloud era seu herói e ele não conseguia se afastar do perigo. Ela o via como uma pessoa cheia de confiança, inteligente, e ela tinha a impressão que ele desapareceria num instante se ela tirasse os olhos dele. Ela queria ficar ao lado dele para sempre se pudesse. Ela queria mesmo.

Quando Aeris deixou seus companheiros para trás e partiu sozinha para a Cidade Esquecida, o coração de Cloud era como um ovo prestes a rachar. Era como se sua mente fosse se partir. Ela queria confortá-lo. Se ela não fosse a última sobrevivente dos Cetra, ela provavelmente teria feito isso sem hesitar.

Mas…

O homem de preto de cabelos prateados, que uma vez foi um herói, herdou toda a vontade do “desastre que caiu do céu”, Jenova, e estava num estado de loucura. Ele iria evocar a mais poderosa magia de destruição, Meteoro, usando a Materia Negra. Tendo recebido a missão de seus ancestrais Cetras, Aeris não tinha escolha a não ser cumpri-la. Mais cedo ou mais tarde, Sephiroth iria evocar o gigantesco meteoro que certamente infligiria uma enorme quantidade de dano ao Planeta. O ferimento seria tão grande que poderia destruir o próprio Planeta. Sem dúvida, o Planeta então concentraria uma grande quantidade de Lifestream para curar a si próprio. A intenção de Sephiroth era tomar todo esse poder para si. Depois disso, ele se tornaria um só com o Planeta, tornando-se virtualmente um Deus. Ele então provavelmente condenaria todos os humanos que ele tanto odeia à agonia e a morte. O futuro do planeta e todo o ciclo de vida acabariam.

Aeris podia sentir, através dos murmúrios do Planeta, que algo poderia ser feito para impedir o pior de acontecer. Ela também sabia que era algo que somente ela, a última Cetra, poderia fazer. Ela só poderia obter o conhecimento para isso na Cidade Esquecida. Mas ir até lá também significaria tornar-se a maior obstrução aos planos de Sephiroth.

Era onde Aeris poderia ter hesitado. Ela deixaria todos os humanos morrerem ou evitaria tal desastre em troca de sua própria vida…? Mas ela nunca chegou a pensar nisso, e já estava preparada. Quando ela hesitava por ter que deixar Cloud em sofrimento, pensava em como ela não poderia deixar de salvar seus amigos e o mundo. Ela já estava decidida. Não havia escolha. Era por Cloud também.

E então, sozinha, ela partiu para o altar da Cidade Esquecida, para descobrir o que deveria fazer. Realmente, a chave era a última dos Cetra. Era a Materia Branca que os Cetra passavam de geração a geração… Como se carregasse o destino da última Cetra, essa relíquia podia evocar a definitiva Magia Branca, Luz, necessária para contra-atacar Meteoro. Era a Materia que foi confiada a Aeris por sua mãe, Ifalna. Ela nunca a havia usado antes e a escondia sob seu laço, jamais deixando-a. Ela tinha a Materia Branca. Descobrindo que a chave estava em suas mãos o tempo todo, Aeris orou com todo o seu coração. Através da Materia, ela falou com o Planeta, tentando evocar a Magia Branca Luz, que destruiria o Meteoro.

Mesmo a menor hesitação poderia significar que suas orações não alcançariam o Planeta. Mas ela conseguiu. Os requerimentos foram cumpridos antes de Sephiroth atacá-la, após perceber suas intenções. Ela aceitou a morte que sentiu há tempos quando a espada a perfurou. E fechou os olhos em paz…

Mas um choro veio até ela.

Não era o som dela mesma chorando. Se fosse, então ela teria sentido o sangue escorrendo pelo seu corpo e a fúria que tentava escapar das profundezas de sua alma… Era o som do coração de Cloud se partindo. Era o lamúrio de seu coração, que jamais poderia ser curado do choque gerado pela morte de Aeris, a culpa sentida por ele e o ódio por Sephiroth.

Ela estava surpresa em ver o grande sofrimento que ele teve. Ela estava feliz por ele sentir tanto por ela, mas também sofria uma dor muitas vezes maior por vê-lo sofrer. Não havia nada que ela pudesse fazer pelo sofrimento de Cloud e pela dor em seu coração.

A dor continuava, mesmo quando ela estava no Lifestream.

Embora tenha perdido seu corpo, Aeris reconhecia a dor criando uma imagem de si mesma em sua mente. E logo, ela percebeu algo.

Tudo em volta dela era a existência de um incontável número de existências. Havia muitas vozes e uma abundância de memórias. Todos em volta dela eram algo que ela nunca sentiu quando estava na igreja em Midgar. Como ela, as almas daqueles que morreram retornaram ao Planeta, e estavam todos aqui.

Mesmo assim, ela não conseguia ver ninguém por perto que mantivesse uma forma, como ela mantinha. Aparentemente, apenas ela mantinha a imagem de sua forma passada no meio da energia cheia de consciências misturadas.

“Será que… É porque sou Cetra?”

As palavras saíram como um murmúrio de Aeris. Aqui, palavras e pensamentos são iguais. Como uma entidade de consciência, seus pensamentos e sentimentos eram expressados pelas ondas vibratórias que ela emitia. Similarmente, o grande número de memórias no Lifestream também chegava a ela através de todo tipo de onda. Por toda a volta, ela ouvia murmúrios de que se você não possui uma personalidade forte, logo não sabe mais qual consciência é a sua própria.

“Eu gostaria que minhas palavras chegassem a Cloud”…

Aeris fechou os olhos brevemente, como se estivesse descontente. Ela não era afetada pela confusão das várias consciências que existiam no mar de memórias e conhecimento dentro da energia Mako. Por causa de sua experiência em ouvir as vozes do Planeta desde pequena, Aeris desenvolveu muita paciência. Ela cresceu desenvolvendo a consciência, fortalecendo sua personalidade.

Mas ela entendia que retornar ao Planeta dependia de como ela se separaria do “inteiro”. Mesmo quando gotas de água caem num lago, elas se misturam e não podem mais ser vistas. Não importa o quão acostumada com isso ela estivesse, Aeris ainda achava estranho sua alma permanecer única no vasto mar de energia consciente.

“Mas o Lifestream deve ser um Cetra também, como eu. Minha mãe morreu, e ela também era Cetra… Já faz quinze anos. Nesse tempo, talvez eu desapareça e me torne um com o Planeta também”.

Olhando para os lados, ela pensava mais sobre o assunto.

“Eu poderei falar com Cloud em algum lugar? Só para dizer que estou bem… É um pouco estranho dizer que estou bem, mas talvez eu possa descobrir mais sobre mim mesma aqui”.

Talvez ela pudesse entender melhor sua afeição para com Cloud aqui. Então talvez eles fossem vistos como uma família de apaixonados… Durante sua vida em Midgar, ela sentiu muitas almas daqueles que tentaram confessar seu amor. Aqueles que ainda possuíam esses sentimentos ou que deixaram esses sentimentos para trás podiam fortemente manter sua consciência “inteira”.

“Mas isso significa que desaparecerei quando encontrar Cloud? Imagino se é isso que está acontecendo ou… Ainda há mais alguma coisa que eu tenho que fazer…?”

Nesse instante, Aeris sentiu algo como um choque elétrico a atravessar. Ela fechou uma das mãos em punho e acertou a palma da outra mão. Era apenas ela imaginando sua forma espiritual chocando as mãos, mas ela claramente podia ouvir o “bang”.

“Faz sentido. Há um significado para tudo isso. Deve haver uma razão para eu não ter me fundido ao Lifestream ainda e estar aqui como estou. Assim como eu era a única no Planeta que podia conjurar Luz… Ainda deve haver mais alguma coisa que eu tenho que fazer”.

Assim que esse pensamento passou por sua mente, ela sentiu uma pequena comoção do Planeta. Não era das consciências individuais, mas o Planeta como um todo parecia querer confirmar o que ela estava dizendo.

“…Entendo. Mas o que será que é…?”

Sua dúvida foi respondida com silêncio. O Planeta também não sabia o que era.

Ela sorriu como as flores que ela costumava vender nos subúrbios. Na cálida luz fluorescente, o sorriso que era amado por todos cresceu docemente.

“Está tudo bem. Ainda há pessoas das quais não quero me separar. Não posso descansar ainda. Até essa hora chegar, vagarei por aqui por um tempo. Se eu passar meu tempo aqui no Planeta… Na nossa Terra Prometida”…

Desejando poder afastar seus pensamentos, Aeris olhou para o céu… Ela olhou além dos limites do Planeta acima dela. As partículas de Mako que flutuavam e brilhavam pareciam o céu noturno para ela.

Ela olhou para o céu, como quando estava ao lado de Cloud ao redor da fogueira em Cosmo Canyon.

 

 

Capítulo 2

No mundo de Mako – Aeris sabia que o conceito de distância aqui é diferente da superfície.

O tempo parecia passar lentamente se ela quisesse, e também podia voar num piscar de olhos. A passagem do tempo em Mako na verdade não tem significado. A história do Planeta é feita de memórias acumuladas, e agora todas estavam unidas e bem ao lado dela. Havia memórias do presente e também do passado. Não há maneira de Aeris ter conseguido ver todas elas, mas os eventos gravados nas memórias ultrapassaram o tempo e agora estão unidos como um todo. Isso indicava que o tempo estava avançando para o futuro no mundo dos vivos. Enquanto essas novas memórias da superfície se fundiam com o Planeta, novas vidas eram levadas ao mundo, com a energia do Planeta como dirigente. Esse ciclo mostrava a Aeris como o tempo segue de um período a outro.

Tudo está ligado ao interior do Planeta através do Lifestream. Mesmo na superfície, nos lugares mais distantes, o fluxo de energia consciente seria alcançado. Por outro lado, havia lugares tão próximos, mas que ao mesmo tempo, a energia não alcançava. Há regiões onde até mesmo o fluxo de Mako não consegue alcançar. Aeris pensava ser culpa dos reatores Mako. A energia nunca deveria ter sido usada daquele jeito e, se eles continuassem a sugá-la à força, isso eventualmente romperia o equilíbrio. Se o Planeta pudesse ajudar os humanos a viver uma vida mais fácil, ele provavelmente faria isso. Mas a Shin-Ra estava indo longe demais. Se seus atos continuassem, então o equilíbrio do Planeta entraria em colapso… Aeris se lembrava de como as flores só cresciam na igreja de Midgar, embora toda a cidade estivesse cheia de Mako.

“E é por isso que todos da Shin-Ra querem saber onde está a Terra Prometida. Um lugar abundante de energia Mako, onde apenas os Cetra sabem chegar… Mas este lugar é aqui. É o lugar onde todos eventualmente irão, quando retornarem ao Planeta. A terra onde a Shin-Ra poderia obter toda a energia que quer não existe, não é? Tudo foi um grande engano”.

Ela pensava, enquanto se deixava levar pelo Lifestream. Aeris olhava para o mundo de Mako em movimento, que apresentava poucas mudanças.

“A Terra Prometida que Sephiroth tem em mente é muito diferente. Ele planeja criá-la à força. Ele pretende ferir o Planeta propositadamente para que toda a energia se concentre num só lugar. Para que ele possa controlar tudo sozinho. Essa é a Terra Prometida que Sephiroth quer”…

Aeris tremia enquanto imaginava o que aconteceria ao Planeta.

“Imagino se Cloud e os outros estão bem… Espero que ele e Tifa não estejam se esforçando demais indo atrás de Sephiroth”…

“…Cloud? Tifa? Barret?”

As ondas de uma das consciências ao lado de Aeris se expandiram como se reagissem a suas palavras. Ela se apressou para sair da corrente em que estava, porque era a primeira vez que ela encontrava outra consciência firme além dela ali. Ao se aproximar do lugar de onde a intervenção veio, uma sombra se formou em Mako. Não era uma imagem clara como a de Aeris, mas era possível reconhecer que era uma mulher.

“Você os conhece? Quem é você?”

“Eu sou”…

Parecia que a memória estava distorcida. Provavelmente era porque a maior parte da alma já havia se fundido com o Mako. Mas seu âmago não havia se decomposto e ainda estava aqui como um todo.

“Oh, eu tenho que me apresentar primeiro. Sou Aeris. Acaso você poderia ser um dos membros da Avalanche?”

“Avalanche… Sim, é isso”.

As memórias estavam sendo reconstruídas no mar de Mako. Dando-se conta de quem era mais uma vez, a figura transparente rapidamente retornou à forma que tinha quando estava na superfície. Como se Aeris tivesse alguma influência sobre ela, as cores também estavam voltando.

Comparada com Aeris, ela ainda parecia frágil, mas parecia mais humana agora, e suas roupas também reapareceram. Seu cabelo era negro, preso em rabo de cavalo para não atrapalhar e suas roupas pareciam as de um soldado. Ela também chegou aqui cedo demais e tem quase a mesma idade de Aeris.

“Como fui capaz de esquecer… Eu sou Jessie da Avalanche. Hei… Você é a senhorita Aeris?”

“Pode me chamar de Aeris”.

“Obrigada, Aeris. Você conhece Cloud, Tifa e Barret, não? Como estão todos? Ainda estão lutando contra a Shin-Ra? Oh”…

Jessie abaixou a cabeça como se quisesse se desculpar. “Você deve estar como eu agora que veio aqui”.

“Não se preocupe. Tenho certeza que todos estão bem”.

Ela mudava seus pensamentos, tentando evitar a imagem de Cloud. Aqui, ela não poderia esconder, então teria que não pensar nele.

“Houve um incidente que incomodou Barret por muito tempo. Então foi lá que você morreu… Você era uma das pessoas que estava tentando proteger o pilar do Setor 7 como membro da Avalanche na época. Eu só tinha conhecido o senhor Wedge”.

“Wedge?!”

Os olhos de Jessie se abriram. “Sim, e Biggs também! Nós três chegamos aqui juntos, mas nos perdemos… Até um momento atrás, eu não me lembrava de nada. Até encontrar você, Aeris”.

Como se guiadas pelas memórias de Jessie, mais duas figuras apareceram. As formas de um homem magro e de um outro mais gordinho rapidamente se formaram.

“Wo- Woah”.

O maior, Biggs, olhou para as palmas de suas mãos. “Eu ainda sou eu… Pensei que fosse desaparecer”.

“Estou tão feliz de poder ver vocês de novo. E… Você é aquela que cuidou de mim daquela vez, senhorita… Aeris, certo? Você morreu também?”

Ao invés de dar a resposta óbvia, Aeris sorriu.

“Já faz muito tempo, senhor Wedge. É bom vê-lo também, senhor Biggs. Depois daquilo, eu me tornei membro da Avalanche também, então isso me torna uma espécie de caloura entre vocês, não?

“Hmmm, acho que isso mostra que ser da Avalanche traz consigo uma grande probabilidade de morte”.

“Barret ainda é o mesmo? Ele é uma pessoa muito imprevisível”.

“Caloura? Ah, estou tão feliz! Eu sempre quis ser veterano em alguma coisa!”

Depois disso, Aeris contou aos três o que a Avalanche estava enfrentando agora. Não era apenas a Shin-Ra, mas também uma existência muito mais perigosa, conhecida como Sephiroth… Eles saíram de Midgar para impedir a ambição de Sephiroth de tomar o Planeta para si.

“Então Cloud é um de nós agora… Estou feliz”.

“He he… Ele é um cara frio, mas eu sabia que se juntaria a nós”.

“Isso significa que o senhor Cloud é um calouro também? Ele vai ser difícil de lidar”.

Havia muita comoção entre os membros da Avalanche enquanto eles conversavam e sorriam. Mas no final, Aeris percebeu suas tristezas. Um remorso profundo abatia os três.

“O que foi? Todos vocês parecem estar sofrendo”…

“Bem… É por causa da maneira como nossas vidas terminou. Não podemos nos redimir agora”.

Jessie olhou para baixo tristemente, enquanto Biggs continuou.

“Nós lutamos como a Avalanche porque dividíamos a mesma simpatia e desejos. Pensávamos que seria inevitável fazer alguns sacrifícios para deter a Shin-Ra. Mas estávamos completamente errados. Nós entendemos isso quando chegamos aqui… Você também sabe, não é, Aeris? Sobre a explosão do Reator Mako do Setor 1”.

“Sim… O Setor 1 não ficava muito longe dos subúrbios onde eu morava. Não soubemos dos detalhes, mas ouvi dizer que muitas pessoas morreram”…

“Naquela época, nós só pensávamos que eles estavam recebendo o que mereciam se foram pegos na explosão, já que na parte de cima estavam todos que trabalhavam para a Shin-Ra. Mas no final, todos nós acabamos aqui, tendo trabalhado para a Shin-Ra ou não. Então estamos pensando em porque fizemos tudo isso. Tudo que fizemos na verdade foi aumentar o tom de voz e gritar nossa opinião bem alto, como um bando de bêbados. Nós estávamos exagerando em nosso método para salvar o Planeta”…

“…Eu também não pensava muito na época. Eu não queria viver uma vida pequena. Eu queria brilhar. Então eu pensei que me juntando a Avalanche, eu poderia ser um herói que salvaria o futuro do Planeta, e era só nisso que eu pensava… Eu nunca imaginei que acabaria envolvendo outras pessoas. É tão idiota”…

Wedge abaixou a cabeça, envergonhado.

“Todo o plano na verdade foi criado pela antiga Avalanche, que não existe mais”.

Jessie comentava, com remorso:

“Havia muitos outros membros na Avalanche e eram um grupo muito mais radical. Nós só herdamos o nome desse grupo de resistência, Avalanche, das pessoas que não estavam mais por perto. Mas detalhes de como fazer uma bomba e os planos de onde colocá-la foram deixados no computador. Já que eu era boa com maquinaria e bombas, decidi experimentar… Mas tenho certeza que esse plano nunca foi criado com a simples intenção de desabilitar o reator Mako 1. As pessoas que criaram esse plano horrível odiavam a Shin-ra. Eles a odiavam tanto que iriam longe o bastante para sacrificar pessoas… Eu devia ter percebido. Barret não sabia de nada disso”.

“É por isso que nós”… – Desolado, Biggs olhava para o céu – “É por isso que nós queremos retornar ao Planeta agora mesmo. Nós queremos desaparecer. Mas é impossível. A luta de Barret para salvar ainda mais pessoas… Não podemos fazer nada disso para pagar por nossos pecados. Só podemos continuar aqui e sofrer”.

“No fim das contas, foi fácil esquecer quem éramos porque nós queríamos estar em paz aqui”.

“Simplesmente não dava certo. Quando tínhamos uma chance, voltávamos à maneira que éramos. Mas mesmo assim nunca fomos uma entidade tão clara como você. É como se fosse uma maldição”.

Os três pararam por um breve momento, que culminou num suspiro.

“Mas… Mas”… – Aeris tentava confortá-los com suas palavras – “Todos cometem erros. Eu, por exemplo, estava vendendo flores sem pensar, por dinheiro”.

“Hmmm… Eu realmente não posso comparar minha estupidez com isso”.

“Mas vocês estiveram sofrendo todo esse tempo”…

“Obrigado, Aeris. Mas como um veterano da Avalanche, é uma história muito vergonhosa. Toda essa conversa séria parece que me cansa”.

“Eu realmente não posso me perdoar. É por isso que essa é a única maneira de eu estar aqui”.

“Ainda chegará o dia em que poderemos retornar ao Planeta, mas neste momento nós não podemos. Agora vá, Aeris. Você deve estar nessa forma porque ainda tem algo a fazer. Tenho medo que nossas memórias de pecado a atrapalhem”.

“Não”…

“Se isso acontecer, nós sofreremos ainda mais. Então vá, por favor”.

Jessie estava mentindo. Aeris sabia que ela estava tentando afastá-la para que ela não precisasse dividir essa dor. Os fantasmas de três pessoas estavam desaparecendo. Aeris segurava os lábios enquanto as lágrimas caíam.

“Por favor, deixem-me dizer pelo menos uma coisa. Naquele dia, muitas pessoas conseguiram escapar porque vocês trabalharam duro para proteger o pilar do Setor 7. Tenho certeza de que o número de sobreviventes foi muito maior que o de mortos do Setor 1… E eu também consegui salvar Marlene por causa disso. Talvez isso não seja o bastante para libertá-los, mas eu sei que as vidas das pessoas não são algo que você deve somar ou subtrair para analisar sua existência… Por favor lembrem que não são apenas pecados que vocês carregam”.

“…Obrigada, Aeris. Obrigada”.

A voz de alguém que já não sabia mais quem era ecoou, e eles foram levados de volta à prisão que eles próprios escolheram, afundando no mar de memórias.

Aeris limpou as lágrimas e começou a andar de novo. Ela rezava para que as almas dos guerreiros da Avalanche pudessem descansar em paz em breve.

 

 

Capítulo 3

Aeris não sabia quanto tempo havia se passado na superfície. Já havia se passado dias desde que ela encontrou Jessie e os outros. Ou será que foi há alguns instantes atrás?

Ela imaginava se a dor deles poderia ser curada. Enquanto se fazia esta pergunta, Aeris continuava vagando pelo mundo. Ela caminhava no Lifestream, no mar de Mako do Planeta.

Quando viu o próximo fantasma, perdeu a respiração por um momento.

A ponta de um tubo de aço surgia em meio a uma luz fraca. Quando Aeris percebeu que era uma mão artificial ligada a um braço, pensou que Barret também havia deixado o mundo dos vivos. O coração de Aeris bateu ainda mais forte quando pensou em Marlene, que escapou de Midgar com sua mãe Elmyra.

“Marlene!”

As ondas de pensamento de Aeris se expandiram e alcançaram o fantasma. A figura completa de um homem com uma arma ligada ao braço surgiu no Mako. A arma emitia um brilho frio, mas estava no braço esquerdo. A arma era temível como se fosse fisicamente real, e a figura frágil do homem reluzia em vermelho.

“Você é”…

“Uma mulher… Onde eu a vi antes? Você até sabe o nome de Marlene”.

“Nós já nos conhecemos, não é, senhor Dyne?”

Ele era Dyne, o governador da Prisão Corel, uma terra de exilados cheia de areia e lixo. Ele também já foi o melhor amigo de Barret. Depois do que a Shin-ra fez com sua cidade natal, seu desespero tirou sua sanidade e, num estado de loucura, ele matou muitas pessoas.

“Ah, entendo. Você é a garota que estava com Barret. Então isso deve significar que você está morta também. Mas que pena”.

Não conseguindo acreditar no que via, Dyne riu.

“Não consigo acreditar que depois de matar tantas pessoas, eu acabei vindo parar no mesmo lugar que uma garota inocente como você. Este mundo realmente é um absurdo. Que coisa chata esse Planeta é. Tudo realmente deveria ser destruído”.

“Você vai continuar dizendo isso?”

A figura de Aeris ficava em contraste com a de Dyne. Ela levantou as sobrancelhas.

“Embora você realmente ame Marlene?”

“Quem liga? Garota, você”…

“Eu sou Aeris”.

“Heheh… Você é forte. Meu braço esquerdo é tudo que resta da minha vida passada. Tudo bem. Chamarei você por esse nome. Você ouviu o que eu falei daquela vez, não? As palavras que troquei com Barret. Quando eu estava tentando destruir tudo, eu pretendia trazer Marlene aqui comigo também”.

“Você está mentindo. Era apenas um blefe”.

“Eu não posso mentir aqui, certo? Eu estava seriamente pensando nisso naquela época. Então eu desafiei Barret a um duelo e fui iluminado”.

Por um tempo, Dyne riu de como ele teve de pagar por tudo com seu braço direito e seu corpo.

“E eu agradeço a Barret por isso. Afinal, eu fui esmagado pelo ‘mundo’ que tentei destruir. Eu não queria acabar com a minha própria vida. E então, eu usei todas aquelas pessoas inúteis que viviam amedrontadas na terra do exílio, libertando-as e tornando-as felizes”.

“…”

“Você entende agora, Aeris? Diante de você está a aparição inútil e despedaçada de um homem que nem mesmo o Planeta aceitou. O Planeta ao qual minha esposa Eleanor já retornou. E eu já confiei Marlene a Barret. O que quer que aconteça ao Planeta agora não me interessa mais”.

“…”

Vendo como Aeris ficou em silêncio, ele riu mais uma vez de como conseguiu amedrontar a garotinha. Então ele percebeu que não era engraçado e que Aeris não tirava os olhos dele. Ele percebeu que não conseguiu amedrontá-la nem um pouco na verdade. Havia um brilho em seus olhos verde-esmeralda que fazia a loucura dele se acalmar.

“…Você não tem coragem”.

“O que você disse?”

“Posso repetir: você não tem coragem. Você não tem coragem de voltar e começar de novo. Você só esteve fazendo o que é mais fácil para você”.

Enquanto Aeris encarava Dyne, deu um passo para frente. Sob a pressão de seus poderosos olhos, ele escondeu o rosto com sua arma e inconscientemente deu um passo para trás.

“Barret também trocou um de seus braços por uma arma. Ele jurou destruir a Shin-ra com seus sentimentos de ódio e remorso. É por isso que as mãos dele também estavam sujas com o sangue de muitas pessoas. Mas ele não se abalou. Além de aceitar o fardo, ele está realmente tentando salvar o Planeta desta vez. Ele está tentando proteger o mundo no qual Marlene viverá sem fugir”.

“…A capacidade de mudar desse jeito é a única habilidade daquele provinciano”.

“Barret é especial e você é diferente?”

Dyne balançou com essa pergunta. Ele estava acordando da loucura. Era a coisa que ele mais odiava… Ele ficou todo esse tempo num estado de loucura para tentar esquecer de si mesmo, mas o olhar fixo de Aeris espalhou a névoa de loucura que o cercava. A armadura em volta de seu coração se partiu.

“Eu sinto o sangue daqueles que matei com minhas próprias mãos nas profundezas da minha alma. Você não vê? Eles tentam me consumir o tempo todo. Se eu voltar, não sobreviverei”.

A figura avermelhada que circundava a figura de Dyne de repente mudou para uma figura sólida. Nos quatro anos que se passaram desde que Corel foi destruída, ele não se importou com a quantidade de ódio que acumulou com seu braço esquerdo de metal, e agora estava coberto de sangue. Foi o fardo do pecado que fez Dyne desistir.

“Como eu posso começar de novo? Tudo que eu podia fazer era continuar nesse estado. Tudo que eu podia fazer era odiar tudo e continuar na loucura! Eu estava enganado?”

“Você está enganado”.

Ela não usou a coerção, mas ao invés disso, se aproximou de Dyne gentilmente. Estendendo suas mãos, tocou a camada de sangue que o cobria.

“O sangue que o cerca é algo que o seu sentimento de culpa está criando. As vidas que você tirou retornaram ao Lifestream há muito tempo. Você não pode esquecer o que você fez, mas não há motivo para não começar de novo. Eu garanto”.

“…”

A partir do ponto que Aeris tocou, o sangue começou a secar, separando-se de Dyne cada vez mais. Então, o braço esquerdo de Dyne começou a desaparecer.

“…Eu poderei retornar ao Planeta algum dia?”

“Tenho certeza que sim”.

“Quando Marlene chegar ao fim de sua vida e vier aqui, eu poderei sair e recebê-la como parte do Planeta…?”

Aeris olhou para o rosto de Dyne e deu um sorriso.

“Você está começando de novo. Vai dar tudo certo”.

O rosto obscuro de Dyne agora podia ser visto claramente. Era diferente da pessoa que ela conheceu na Prisão de Corel. Era o rosto verdadeiro de alguém que amava sua família e cidade natal mais do que qualquer um.

Ele não poderia mais retornar aos tempos pacíficos de quando trabalhava nas minas de Corel antes da tragédia. Tanto Dyne quanto Aeris sabiam disso. Mesmo assim, os corações das pessoas podem ser reconstruídos. Elas se levantam e enfrentam essas memórias dolorosas. Se isso não acontecesse, então o mundo já seria um absurdo.

“O que posso fazer nesse mar de Mako? Não, o que eu devo fazer…? Eu continuarei pensando naqueles que matei por um tempo. Até que um dia eu possa me unir ao Planeta”.

“Sim, acho que é uma boa idéia”.

“Aeris, me perdoe pela maneira como a tratei. Estou feliz por tê-la conhecido”.

“Você não me tratou mal na verdade”.

“Você realmente é uma pessoa incrível”.

Pela primeira vez, Dyne sorriu do fundo do coração, e lentamente, sua imagem desapareceu. A ponta da arma de seu braço esquerdo também sumiu.

“Após morrer e passar por tudo isso, finalmente eu posso parar de virar minhas costas contra Barret e Marlene. Deixe-me agradecer”…

Pouco antes de ele desaparecer no Lifestream, Aeris viu. Ela viu partículas de Mako indo em direção a Dyne e se agarrando a ele como se tivessem vontade própria. A voz fraca de Dyne ainda podia ser ouvida.

“Eleanor?”

E então, Aeris voltou à sua jornada.

 

 

Capítulo 4

Até agora, Aeris pensava que o Lifestream não tinha cheiro.

A maneira como sua alma percebeu foi meio que usando cinco sentidos espirituais: ouvindo as memórias remanescentes em volta dela e percebendo a energia em forma de imagens. É verdade que ela podia tocar as coisas neste mundo também, mas pode-se dizer que era apenas uma extensão da visão.

Não havia necessidade clara de comer, não havia paladar. Ela apenas sabia que seu sentido de olfato estava funcionando, embora realmente não houvesse cheiro algum. Mesmo o sangue que cobria Dyne era apenas simbólico, então não havia cheiro nesse mundo. Aeris pensou brevemente como era triste que mesmo as flores não teriam perfume aqui.

Ela encontrou outra alma.

Tinha o cheiro de algo podre. Era como se não estivesse totalmente decomposto ainda, espalhando um cheiro desagradável. É o tipo de cheiro que faz uma pessoa sentir náuseas.

Era o único ponto em que o Mako estava fraco. Era uma região em que o Mako era distorcido e evitava, incapaz de se formar naquela região específica. Um homem velho estava lá.

“Bem, bem… Este é um rosto do qual me lembro”.

Como em sua vida passada, o homem vestia uma roupa cara feita especialmente sob medida. Olhando melhor, Aeris pôde perceber que ele também mantinha uma imagem quase tão sólida quanto a dela. Mas as únicas coisas claras eram suas roupas caras, sapatos e ornamentos. Seu rosto estava muito distorcido. Ele era baixo, possuía bigode e uma voz típica de uma pessoa velha.

“O seu nome é… Não importa. Você é a garota que tem o sangue dos Ancients correndo em suas veias, estou certo?”

“Isso não importa”.

Aeris realmente não tinha intenção de revelar seu nome. A pessoa diante dela era o antigo líder da Corporação Shin-ra, Presidente Shin-ra, a autoridade absoluta de uma corporação que ultrapassou o poder das nações.

“Entendo. Então, você veio até aqui também. Está morta como eu? No mesmo lugar que eu?”

O presidente era incapaz de esconder o contentamento com seu tom de voz.

“Nos encontramos no final como se fôssemos mandados para outra vida juntos. O Planeta realmente sabe como fazer surpresas. Sinto que ganhei algo com tudo isso”.

“Ganhou algo?”

Significava a mesma coisa que Dyne disse no início. Mas no caso de Dyne, era mais cinismo quanto a si próprio. Esse homem era completamente diferente. Aeris sentia que o Presidente Shin-ra estava realmente pensando no que estava falando.

“Você não entende, não é? Os Ancients são mais estúpidos do que eu pensava. Bem, é por isso que você se recusou a cooperar com a Shin-ra afinal. Ora, ora, mas que vida miserável e patética”.

“Que rude. Não me lembro de ser nada disso”.

O presidente riu de Aeris, como se quisesse mesmo apenas irritá-la.

“Não conhecer os ganhos e perdas de alguém é uma vantagem relativa. Mas pense bem em tudo isso. Após escapar de Hojo junto com sua mãe, sua vida foi jogada nos subúrbios sujos por quinze anos. Quando os Turks encontraram você, você poderia ter vivido uma vida luxuosa nos setores ricos acima do prato se quisesse. Naquela época, Hojo estava sonhando com alguma outra experiência e então eu dei as instruções de ficarem de olho em você. Mas se você tomasse a iniciativa de cooperar conosco, então eu a teria recebido calorosamente e a daria tratamento especial. Então o que você acha agora? Após viver nos subúrbios, viver como um inseto, se envolver com a Avalanche e morrer sem saber o que é o luxo, você ainda pode dizer que sua vida não foi patética?”

“…Esse é um ponto de vista realmente complexo, pesando o quão felizes uns e outros são pelo seu dinheiro”.

“Eu sou uma pessoa prática. Se você analisar friamente, tenho certeza de que não encontrará outro humano que tenha lucrado tanto quanto eu”.

Um sorriso surgiu no rosto do presidente enquanto ele falava.

“Com minha visão sistêmica, eu consegui expandir a Shin-ra, uma companhia que começou do nada produzindo armas, até o tamanho que ela tem hoje. Descobrir as possibilidades dos usos de energia Mako e desenvolver os reatores que absorvem energia foi o ponto crucial. A energia Mako facilitou a vida das pessoas, aumentando sua satisfação e tornando-as minhas escravas. Após colocar as mãos numa vida tão conveniente, isso tornou-se viciante como uma droga para as pessoas mais ignorantes e passou a controlar suas mentes. E nós, a Shin-ra, que controlávamos essa energia, expandimos a escala de nossa companhia num instante. Com táticas simples, conseguimos reunir todos os talentos que queríamos. Sonhos de planejar a construção de uma metrópole, um programa de exploração espacial… Eles fariam tudo isso por mim. Eu podia usá-los. Eles me serviam como a um rei. O público não conseguia ver o que estava acontecendo. Mesmo a mídia, que controlava o público, era controlada por nós, que monopolizamos a energia Mako. A Shin-ra simplesmente dominou o país e eu ascendi a um trono no qual ninguém me criticaria, não importando o que eu fizesse. Eu controlava todos os idiotas, tinha um poder ilimitado e regia o mundo todo! Eu não me importaria de ter uma vida mais longa, mas tudo bem. Então, o que você acha, Ancient? Você entende qual de nós dois ganhou mais em vida? Ou melhor, entende como a sua vida foi patética?”

“Hmmm… Talvez?”

O que Aeris entendeu é que a felicidade do homem diante dela era muito diferente do que ela estava pensando. A felicidade da qual ele falava era apenas de coisas relativas. Ele queria estar numa posição onde tivesse mais lucros que qualquer um. Como resultado disso, as idéias da Shin-ra de absorver a vida do Planeta permaneciam com ele até mesmo agora. Ele era como uma alma indefesa que não conseguia mais sentir felicidade, enquanto aqueles que foram menos afortunados que ele conseguiam.

Ela não tinha intenção de falar tudo isso. Se esse era o ponto final da satisfação dele, então não havia nada a ser feito. Ele não conseguia se desprender do dinheiro que conquistou e sua podridão começou a exalar aquele mau cheiro. Como se estivesse preso no vazio, o infeliz Presidente Shin-ra não sabia que havia se libertado de suas ambições após morrer.

Sempre procurando alguém com quem se comparar, o Presidente estava irritado com a falta de resposta de Aeris.

“Foi tão idiota de minha parte me comparar a uma humana tão estúpida. Não estou de bom humor. Estou muito irritado. Saia daqui rápido se não entende o que estou dizendo”.

“Eu farei isso”.

Esse homem não podia ser salvo. No trono onde seus desejos apodreciam, ele iria permanecer lá até o fim de seus longos dias e seu ego desaparecesse.

Quando Aeris deu as costas para o Presidente Shin-ra e estava prestes a recomeçar sua jornada…

Algo estranho aconteceu. Uma outra onda, separada do Lifestream, atravessou o mar de Mako violentamente. Era uma onda ameaçadora, como uma grande pulsação.

“O que é isso?!?”

Ouvindo os gritos do velho, Aeris se virou de volta.

Tudo que ela pôde ver foi a figura do Presidente sendo levada pela distância. Gradualmente, a velocidade aumentou a um nível extremamente rápido.

Ele não estava numa corrente. O velho era puxado por uma força semelhante à da gravidade, pegando mais velocidade a cada segundo. Ele estava indo a algum lugar no mar de Mako, à força.

Deixando um longo grito de medo para trás, o Presidente Shin-ra desapareceu.

Aeris sentiu a pulsação de novo. Ela sabia claramente o que era desta vez. Era a mesma pulsação que acabou com sua vida na Cidade Esquecida.

Aquele homem estava em algum lugar no Lifestream.

“Sephiroth”…

O anjo caído de cabelos prateados sorriu friamente, como se levasse as almas condenadas para o inferno. Desta vez, Aeris sabia que o perigo não estava acabado.

A magia branca definitiva, Luz, que ela evocou, estava sendo contida quando estava prestes a funcionar. A antiga cicatriz do Planeta… Sephiroth estava na Cratera do Norte, a “Terra Prometida” de Jenova, esperando pelo momento de renascer como uma nova entidade.

A magia negra de destruição definitiva, Meteoro, estava em andamento. O martelo demoníaco que desceria dos céus distantes para esmagar o Planeta foi evocado.

 

 

Capítulo 5

Cloud estava caindo no Lifestream.

Ele não estava caindo como se estivesse morto. Ele estava caindo no mar de Mako vivo, com seu corpo material. Ele estava a caminho da morte.

Na Cratera do Norte, ele descobriu que suas memórias eram falsas. Ele era apenas uma marionete para a qual o insano cientista Hojo transplantou células de Jenova. Um ser criado para se fundir com Sephiroth para sua ressurreição. Mas como uma falha, ele era um clone inferior que sequer recebeu um número.

Ele foi jogado para fora de Midgar como lixo. E então ele conheceu Tifa. Ele conheceu “sua” amiga de infância, Tifa Lockhart. Naquela época, com o poder de Jenova de copiar memórias, as lembranças que Tifa tinha de Cloud foram instantaneamente transferidas para ele. As partes que faltavam foram preenchidas com suas próprias lembranças de ser um Soldier, para completar tudo. Foi assim que a personalidade conturbada de Cloud Strife, baseada no jovem que existia na mente de Tifa, nasceu. Enquanto esse “Cloud” tinha muitas contradições quanto a si mesmo, ele construiu um personagem fictício para que não duvidasse mais de si mesmo. Esse personagem era ele mesmo.

Porém, o disfarce estava para acabar.

Ele começou a falhar já algum tempo. Após entrar em contato com muitos clones de Sephiroth, a ressonância dentro da mente de Cloud criou muitas suspeitas. Muito antes da morte de Aeris, a personalidade que ele construiu, escondendo suas suspeitas, começou a se partir. Usando o ódio que ele nutria por Sephiroth e os objetivos que tinha em mente, ele de alguma forma conseguiu se manter, mas isso só durou até encontrar o verdadeiro Sephiroth.

Na Cratera do Norte, diante de Sephiroth, que tinha Jenova em sua posse, o personagem Cloud caiu. Logo depois disso, até sua consciência ficou sob controle de Sephiroth, já que o próprio Cloud o entregou a chave para evocar Meteoro, a Materia Negra.

Cooperando com o inimigo que ele odiava e sendo capaz de se voltar contra seu próprio objetivo de deter o Meteoro, Cloud entrou em colapso. Seu falso ego mosaico se partiu em pedaços e em sua consciência vazia, apenas o desespero de como ele não era nada mais que um clone falho de Sephiroth permaneceu.

E assim…

Agora não tendo mais nenhuma utilidade, Cloud caiu no Planeta através da Cratera do Norte, abandonado no Lifestream.

Com seu ego perdido, o que iria acontecer se a energia Mako altamente concentrada, contendo as memórias agregadas do Planeta, entrasse em seu sistema?

Ele era igual a uma esponja seca mergulhada num líquido. Sua consciência em branco e inúmeras memórias sem sentido iam ser enterradas. Esse estado, no qual a pessoa fica extremamente intoxicada, é comumente chamado de “envenenamento por Mako”.

Com sua mente sendo infligida além do ponto de recuperação, Cloud flutuava no Lifestream. Logo, seu corpo vivo que não deveria estar no Lifestream, foi lançado por um dos gêiseres naturais de Mako da costa de Mideel. Com sua personalidade perdida, ele agora era uma pessoa vazia em confusão.

Aeris sabia uma das razões de haver um lugar do qual o Lifestream não podia se aproximar. Esse lugar tinha uma barreira que Sephiroth colocou. O desastre que caiu do céu, Jenova, trouxe consigo um meteoro que criou uma enorme cicatriz no Planeta devido a seu impacto. Agora esse lugar, onde muita energia era reunida para curar a ferida, havia se tornado o palco da ressurreição de Sephiroth. Os fluxos de vida de todo o lugar eram sugados pelo vórtice artificial, impedindo uma entidade desencarnada, como Aeris, de se aproximar.

Aeris queria muito falar com Cloud quando seu corpo caiu no vórtice. Ela tentou muitas vezes, enquanto o corpo dele era carregado para Mideel. Mas com sua mente despedaçada e coberto de desespero, Cloud não conseguia ouvir a voz de Aeris. Não importava o quanto ela tentasse, sua voz não chegava até Cloud.

Sem poder fazer nada, Aeris viu o corpo de Cloud retornar à superfície.

“Como eu posso salvar Cloud? Como posso deter o Meteoro? Eu nunca imaginei que Luz seria contida. Se continuar assim, o Planeta vai acabar como Sephiroth quer… O que eu posso fazer? Me diga, Cloud”…

Aeris chorava enquanto pensava no estado de Cloud, que nem mesmo suas orações alcançavam. Sua personalidade partida não poderia mais ser encontrada. Se ele não era Cloud em primeiro lugar, então quem era ele? Conhecendo-o apenas como um ex-membro da Soldier, não havia como ela saber. Ela mergulhou num sentimento de inutilidade que não conseguia descrever.

“Cloud… Sinto sua falta. Eu quero o verdadeiro você”…

Seus murmúrios e pensamentos se expandiram em ondas e se espalharam pelo Mako.

Suas memórias junto a Cloud vieram à mente outra vez. Sua impressão é que embora ele não fosse muito social, havia algo que encantava nele.

“Eu senti algo estranho nele, mas tudo foi mesmo apenas inventado, parte de uma personalidade falsa? Cloud não era real em nada? …Não, isso não pode ser verdade. Havia coisas que somente Cloud pensaria. Coisas que ele fez porque era Cloud. Ele nunca foi uma casca vazia para começar!”

Mas ela não podia descobrir a verdade sozinha. Seus pensamentos apenas davam voltas. Aeris mergulhou em suas memórias mais uma vez. Memórias que mostravam a individualidade de Cloud. A maneira como ele andava, falava… Ela remontou suas ações uma a uma…

Esses pensamentos começaram a se fundir no mar de Mako e despertaram alguém. Essa “pessoa” reconheceu as imagens que Aeris mentalizava e despertou.

“Aeris… É você?”

No início, Aeris não se lembrou de quem era a voz, porque foi muito repentino. Em pânico, ela se virou e viu um rosto nostálgico que não via há cinco anos. Ele foi o primeiro amor dela. Ele agora era um amigo muito querido que ela não via desde que ele desapareceu sem deixar vestígios. Ele tinha as mesmas características que ela viu em Cloud. Zack, que tinha os olhos azuis da Soldier, apareceu diante dela. Ele tinha uma imagem inferior à imagem sólida de Aeris.

“Zack! Isso quer dizer que você está morto também?”

Embora Aeris normalmente não fizesse perguntas tão óbvias, foi a primeira coisa que veio a sua mente e ela falou quase que num reflexo. Além disso, era estranho que um Soldier tão habilidoso e experiente morreria. Apesar dela não ter idéia do paradeiro de Zack, ela tinha certeza de que ele estava a salvo e vivendo tranquilamente em algum lugar… Ela se culpou por acreditar cegamente nisso. Essa realidade cruel foi um choque forte para ela.

“‘Você também?’ … Isso quer dizer que você está morta também, Aeris? Bem, eu ia dizer a mesma coisa mesmo e então… Como devo dizer… Meus pêsames?”

“Você não mudou nada”.

Não importava o que acontecesse, Zack nunca perdia o bom humor. Como se fosse salva por essa personalidade ativa, Aeris sorriu fracamente. Apesar de ela saber que ele era parte da Soldier da Shin-ra, era essa parte dele que a atraía.

“Muitas coisas aconteceram. Coisas terríveis. Tudo começou quando fui enviado numa missão à cidade rural de Nibelheim”.

“Nibelheim?”

“Sim, você conhece? Naquela época, eu estava junto com um Soldier muito famoso que era conhecido como herói. Ele de repente ficou louco e”…

“Você fala de Sephiroth, não é?”

Aeris respirou mais forte. Ela acreditava que havia um significado para Zack aparecer. Ela tinha um sentimento de que ele estava ligado a tudo.

“Aquele maldito é mesmo famoso. Ou é porque você leu sobre o grande massacre de Nibelheim nos jornais?”

“Você estava lá na época, Zack? Então e quanto a Cloud?”

“Ei, ei, espere aí! Como você sabe sobre Cloud também? Ele está bem!?”

“Eu conheço Cloud também. Realmente existe um Cloud, não existe?”

Os dois rapidamente trocaram o que sabiam. E então Aeris soube. Ela soube que Cloud não era apenas um boneco feito para Sephiroth. Ela também entendeu porque ela viu Zack nele.

Zack também soube. Soube a situação em que seu grande amigo se encontrava. O amigo que se envolveu com ele no incidente e foi caçado pela Shin-ra. Ele também soube que Sephiroth ia ser ressuscitado e se tornaria uma ameaça não só a Nibelheim, mas a todo o Planeta.

“Zack… O que eu devo fazer para que Cloud descubra a verdade sobre si mesmo? Você pode dizê-lo que ele é real?”

“É impossível para nós fazer isso. A única que pode fazer isso é aquela garota que estava conosco em Nibelheim, Tifa. Se as lembranças dela puderem despertar as de Cloud, então”…

“Isso vai ser difícil. Mas não desistirei. Tenho certeza de que há uma chance”.

O rosto de Aeris se encheu de brilho agora que havia uma esperança.

“Quando isso terminar, Cloud e os outros poderão fazer algo quanto a Sephiroth. Eles poderão remover o obstáculo que está consumindo Luz”.

E logo, a oportunidade veio.

Sob a pressão da aproximação do meteoro, o Planeta despertou suas armas de defesa massivas, os Weapons, e o fluxo de Lifestream foi interrompido por suas atividades. A quantidade de energia que era liberada na superfície nunca foi vista antes. Acontecendo também em Mideel, Cloud, que estava pacificamente descansando lá com Tifa cuidando dele, ambos caíram no Lifestream.

Ambos foram engolidos pelo Mako ao cair no Planeta. Para Cloud, era a segunda vez, mas para Tifa, era sua primeira experiência.

Aeris arriscou tudo que tinha nessa oportunidade de ouro.

Ela desesperadamente tentou falar com Tifa, que estava prestes a ser intoxicada pelo Mako altamente concentrado. Guiando sua consciência, ela a guiou ao coração fechado de Cloud.

Na verdade, Aeris queria fazer isso sozinha. Mas ela não podia. Foi por isso que ela confiou tudo a Tifa. Ela entregou a Tifa todos os sentimentos que ela nutria por Cloud. Ela os entregou àquela que iria “viver” com Cloud…

E então, Tifa conseguiu. Reunindo suas próprias lembranças com as de Cloud, ela procurou as coisas que apenas o verdadeiro Cloud poderia saber. E enfim, a porta fechada foi aberta… Naquela época, o poder de Jenova que foi implantado em Cloud copiou as características de seu amigo próximo, Zack. Procurando as memórias mais profundas que estavam misturadas em tudo isso, Tifa conseguiu reconstruir o verdadeiro Cloud, ao invés da pessoa falsa que ele criou para se proteger.

“Você conseguiu, Tifa. Obrigada… Sinto um pouco de inveja de você, mas… Cuide de Cloud por mim. Cuide de Cloud e do mundo”…

Tifa abraçou Cloud fortemente quando ele voltou aos sentidos. Aeris observou os dois retornarem à superfície sorrindo como uma mãe afetuosa.

Era uma visão deslumbrante para Zack.

“Puxa, isso é incrível, Aeris. De todas as garotas que conheci, você realmente é a melhor. Depois daquela missão, nós poderíamos ter continuado como estávamos e eventualmente nos casaríamos. Teríamos uma vida feliz e pacífica depois que eu voltasse para casa. Eu odeio Sephiroth. E odeio a Shin-ra, que esteve escondendo tudo que fizeram”.

“Alguém que ‘conheceu’ tantas garotas nunca poderia ser um bom marido”.

“Que cruel. Eu sou muito respeitoso”.

“E esse é o seu defeito. Você não é simplista e objetivo como Cloud”.

“Era isso que você gostava, Aeris?”

“Quem sabe…? As coisas podem ter mudado depois de cinco anos”.

“Heh”.

Zack fez um rosto de tristeza falso, e então sorriu levemente. Era o mesmo sorriso idêntico de quando ele e Aeris se conheceram há muito tempo. Quando ela tinha dezessete anos, foi isso que a atraiu nele.

“Não acabou ainda, mas eu vou dormir por um tempo. Parece que não há nada que eu possa fazer por enquanto. Mas sempre que se sentir sozinha, me chame, Aeris”.

“Só se eu me sentir muito sozinha. Boa noite, Zack”.

E o Soldier de Primeira Classe desapareceu no Mako. Acreditando que sua missão não estava acabada ainda, Zack decidiu se ocultar para poupar energia.

Aeris, por outro lado, não ia dormir. Sendo uma Cetra, não se sentia nem um pouco cansada.

Ela estava feliz. Estava feliz de saber que agora o verdadeiro Cloud podia cuidar de si mesmo, embora fosse apenas por um curto tempo.

 

 

Capítulo 6

“Hahaha”…

Aeris parou de caminhar quando ouviu a risada que lhe deu calafrios.

Mesmo enquanto Cloud e os outros lutavam para encontrar uma maneira de entrar na Cratera do Norte pela superfície, ela continuou a vagar pelo Lifestream, tentando encontrar alguma fraqueza na barreira de Sephiroth ou alguma abertura que a permitisse libertar a contida Luz. Mas ela não encontrou. Tendo absorvido completamente os poderes de Jenova, Sephiroth estava firmemente protegendo a cratera que iria se tornar seu casulo, especialmente de qualquer forma de aproximação pelo Lifestream. Fazendo isso, ele podia evitar a fúria do Planeta, que esteve contra Jenova todos esses anos, e se esconder dos olhos dos Weapons que nasceram para expurgar todos os males do Planeta.

“Se Luz não funcionou a tempo, então”… Quando Aeris começou a pensar na situação, a risada ecoou de novo.

Uma nova alma havia acabado de cair no mar de Mako. Era um homem velho em roupa de laboratório com o rosto cheio de veias nervosas e uma risada deturpadora: originalmente sob a autoridade da Shin-ra, ele era um cientista louco que fazia experiências anti-éticas em humanos constantemente. Hojo lentamente voltou sua atenção para Aeris.

“Professor Hojo”…

“Ah, a filha dos Ancients. Entendo. Enquanto os Cetra quiserem, podem viver no Lifestream sem perder sua consciência. Eles só perdem sua habilidade de serem humanos… Hahaha, igualzinho a Jenova e Sephiroth, podemos ver”.

“Não me compare a eles. E você ainda não lembra o meu nome”.

“Isso não importa. É muito mais apropriado chamá-la de ‘a última Ancient’ do que qualquer outro nome, já que este reflete sua verdadeira natureza única. Oh sim, sua diferença em meus laboratórios, com meu sistema de numeração, teria sido o suficiente para distingui-la.

“Os humanos e todas as coisas vivas são apenas cobaias potenciais para você? Você ainda não consegue mudar apesar de estar livre aqui como uma alma?

“Hahaha… Kyahaha!”

Como se tivessem contado uma piada engraçada, Hojo riu alto, como se estivesse possuído.

“…Heehee, heeheehee. Não, eu mudei. Eu mudei muito antes de cair nesse Lifestream. Você não entende, não é? Ah, essa roupa de laboratório está no caminho…

Hojo tirou o jaleco e o dobrou vagarosamente. A imagem de seu jaleco se partiu em milhares de fragmentos, voando aleatoriamente como penas, expondo o corpo de carne que estava escondido sob ele.

“…!”

Aeris engasgou. O corpo diante dela não era humano, mas sim composto de células de Jenova, algo que ela já teve o desprazer de ver muitas vezes. Hojo se cansou de fazer experiências nos corpos dos outros e acabou usando a si próprio como cobaia para suas experiências insanas.

“Heeheehee. Em outras palavras, não sou diferente de um exemplar agora. Mesmo você nunca imaginou que tanto assim havia mudado, não?”

“O que você fez…? Você desistiu de sua humanidade, Professor Hojo? Você violou sua alma tanto que nunca poderá retornar ao Planeta”…

“Lifestream… O ciclo da vida… A vontade do Planeta… Nada disso é mais importante que meus desejos para mim. O que é realmente importante para mim é descobrir até onde a ciência pode ir superando a natureza e o sistema do Planeta. Se eu puder satisfazer minhas ambições supremas e curiosidade insaciável, então não terei remorso de perder minha humanidade. Não me importa o que acontecerá ao Planeta enquanto eu puder provar minhas teorias sobre Jenova!”

Os pensamentos que Hojo emitia eram pura loucura e não eram como a loucura da qual Dyne precisava ser salvo. Ao contrário das ambições do Presidente Shin-ra, o ponto final de seus objetivos era certa destruição. Hojo era como um cadáver vivo. Ele havia se tornado um escravo do conhecimento, possuído por sua própria loucura por ciência, sem pensar na vida ou no futuro.

“Agora essas provas que tenho superaram Gast, que era reconhecido por seu talento, mesmo que tentasse fugir da ciência como o covarde que ele era. Se Gast estivesse à frente do Projeto Jenova agora, ele certamente nunca teria chegado a esse estágio… Haha, sim. Professor Gast era seu pai, não é mesmo?”

“…Meu pai entendeu que o Planeta era mais importante que a ciência”.

Aeris descobriu quando as memórias de Tifa e Cloud se fundiram com o Lifestream quando eles caíram. Ela também descobriu que foi Hojo quem matou seu pai quando ele tentou levar Aeris, recém-nascida, para ser usada como cobaia.

“Ha, esse foi o fim de Gast. Parar e não fazer o que devia ser feito foi uma blasfêmia para a ciência… Heh, é hora de nossa conversa acabar”.

Sem mostrar o menor sinal de culpa, Hojo se voltou na direção da Cratera do Norte.

“Meu filho, o herdeiro de Jenova, está chamando. Ele está pedindo mais energia vital. Hahaha, eu me oferecerei. Então ele se tornará um comigo, aquele que ele mais odiava e desprezava. Essa será a nossa reunião”.

Hojo, que havia se fundido com Jenova, foi arrastado como Presidente Shin-ra daquela vez. Rindo verdadeiramente em sua loucura, ele foi sugado para o fundo do poço de gravidade.

“Deixe-me dar um último conselho, Ancient. Não importa o que você faça, é inútil. É tudo parte do sistema desse Planeta. Muitas entidades desconhecidas caem do céu no ciclo de vida do Planeta sem saber e agora Jenova está lá. Então para onde vai o espírito? Mesmo que você tente destruí-lo, ele nunca desaparecerá. Ele se fundiu com o mar de Mako, acessando todas as partes do Planeta pelo Lifestream. Um dia, você terá que viver como parte de Jenova. Hahaha… É apenas uma questão de tempo”.

“Eu nunca deixarei isso acontecer!”

“Você também entenderá algum dia. Hahahahaha…!”

Deixando para trás apenas sua risada insana, a coisa que uma vez foi Hojo desapareceu. E então ele se tornou um sacrifício para Sephiroth com uma expressão cheia de felicidade e loucura. Até o último momento antes de sua alma desaparecer, ele não mostrou remorso ou vergonha.

Aeris sabia que a morte de Hojo significava o fim da Shin-ra. Nesse caso, a batalha decisiva de Cloud estava se aproximando.

Ela começou a correr. Se Hojo podia se sacrificar para ajudar Sephiroth, então devia haver alguma coisa que ela podia fazer para salvar o Planeta.

Era nisso que ela acreditava.

 

 

Capítulo 7

Cloud e seus companheiros derrotaram Sephiroth.

Afundando na cicatriz do Planeta e absorvendo a energia Mako, o Sephiroth original foi revivido e seus ferimentos totalmente curados. Na batalha que se desenrolou depois, o desejo que ele herdou de Jenova, suas próprias ambições e suas fortes convicções lhe deram um enorme poder, mas os humanos ainda conseguiram superá-lo no final. O corpo físico de Sephiroth foi destruído e, cheio de ferimentos, ele recuou.

Mas apenas Cloud sabia disso. Tendo sido exposto às células de Jenova, havia traços da consciência de Sephiroth nele. Parte de sua consciência estava em sintonia. Cloud podia sentir a existência de seu alter-ego em algum lugar do Lifestream, continuando a obstruir Luz mesmo agora.

Deixando apenas sua mente entrar no mar de Mako, Cloud seguiu em busca dele. Atravessando as correntes, seu velho inimigo estava esperando por ele. A alma de Sephiroth não havia sido destruída ainda e ainda era uma ameaça ao Planeta.

No mundo de energia consciente, suas espadas colidiram. Sephiroth, o Soldier mais poderoso e a pessoa mais admirada, atravessou Cloud com sua espada como um raio de luz. Mas Cloud não tinha medo. Acreditando ter vencido, Sephiroth levantou sua espada longa para seu próximo ataque e nesse instante, Cloud o atacou com toda a força que tinha. Sua grande espada atravessou o corpo de Sephiroth naquele breve instante. Seu ataque abriu outra oportunidade para ele, que atacou Sephiroth mais uma vez. Foi uma tempestade de ataques: quinze ataques sucessivos atravessaram Sephiroth.

O anjo caído sorriu. Mas o dano que ele recebeu estava muito além do que ele podia agüentar e seu corpo espiritual começou a se desfazer. Raios de luz saíam de dentro de seu corpo como se o estivessem cortando em pedaços. Sephiroth foi destruído. O pesadelo de Cloud, que começou há cinco anos em Nibelheim, finalmente acabou.

A Luz que não estava mais obstruída imediatamente começou a agir.

Desta vez, Cloud havia se separado de seu corpo e estava num estado de mente ausente, mas, no abismo do mundo de Mako, ele viu uma mão para guiá-lo. Era branca e delicada. Lembrava a mão que lhe deu uma flor em Midgar. Inconscientemente, ele estendeu sua própria mão de encontro a ela…

Sua consciência retornou ao corpo. A mão de Tifa o segurava enquanto o solo se partia embaixo dele.

Se a mão não estivesse lá para guiá-lo, então ele estaria no fundo do Inferno agora. Foi uma ajuda e tanto. Cloud percebeu que havia sido salvo.

Mas era tarde demais.

Midgar estava prestes a se tornar o ponto de impacto para o Meteoro dos céus, e ele já estava perto demais do solo. A força gravitacional entre o Planeta e o Meteoro gigante criou furacões que impiedosamente devastaram os pratos da cidade superior. Como resultado, a energia de Luz que ficava entre o Planeta e o meteoro só aumentou o poder destrutivo entre os dois ao invés de ter o efeito que supostamente deveria ter.

Continuando assim, não apenas os moradores de Midgar que se refugiavam nos subúrbios se envolveriam, mas o Planeta seria tão danificado que ficaria além da recuperação. O plano de Sephiroth havia sido detido, mas todos sabiam que o pior ainda estava por vir.

O Planeta estava indo de encontro ao fim.

“Emprestem-me seu poder, todos!”

Aeris gritou. Suas ondas de pensamento se espalharam pelo mar de Mako. Carregadas pelo Lifestream, se espalharam pelo Planeta.

“Não posso fazer isso sozinha. Vamos todos proteger o Planeta!”

O chamado da última Cetra atraiu as incontáveis consciências que ela havia despertado durante sua jornada. A consciência do Planeta inteiro foi despertada. É claro, entre elas também estavam as consciências daqueles que estavam suspensos por seus pecados. Com suas fortes vontades combinadas, eles conseguiram controlar a enorme energia do Planeta.

“Eu estava esperando por isso! Vamos ligar o fusível e explodir o meteoro de uma vez só!”

“É a vez da Divisão Lifestream da Avalanche! Agora que Barret não está aqui, eu sou o líder!”

“Não! Eu queria ser líder também! Isso não é justo, Wedge!”

“Vocês nunca são sérios, mesmo que sejam companheiros de Barret. Vamos levar isso a sério e fazer direito, por Marlene”.

Sob esse comando, incontáveis feixes de luz apareceram na superfície, unindo-se ao Lifestream. E então, cobrindo o Planeta e protegendo-o como uma rede, o Meteoro teve o curso mudado de volta para o espaço sideral. O movimento da Luz foi como uma Valquíria guiando seu exército imortal pelos céus.

“Ei, Aeris, você viu a finalização de Cloud?”

Zack guiou sua energia para a segunda onda, quando o Meteoro foi jogado de volta perdendo sua força.

“Aquela era uma técnica minha também. Isso não faz você se apaixonar de novo?”

Com espaço o bastante, Luz agora começava a fazer efeito. Agindo como uma barreira, as partes do Meteoro que entravam em contato com ela eram transformadas em pó e jogadas no espaço. O Meteoro não era mais uma ameaça ao Planeta e agora apenas esperava indefeso e pronto para ser destruído.

O Planeta escapou da destruição.

Os pensamentos de Aeris foram libertados.

A bordo da Highwind, Cloud viu tudo. E também Tifa, Barret e os outros. Eles viram o sorriso de Aeris, que nunca abandonou suas memórias, aparecer no Lifestream e gentilmente desaparecer, enquanto retornava ao Planeta.

Enquanto o tempo começava a se mover de novo, a tristeza de todos parecia ter curado um pouco.

E então, as memórias de vida que o Planeta criou continuaram.

Continuaram para o nascimento de uma nova era…

 

Hoshi o Meguru Otome ou, em inglês, The Maiden Who Travels The Planet (A Dama que viaja o Planeta) é uma novelização escrita por Benny Matsuyama que aparece no guia “Final Fantasy VII Ultimania” e que conta a viagem de Aeris através do Lifestream após ter sido morta por Sephiroth. A história se desenvolve com a narração de seus encontros com outros personagens que também se foram e desvendando detalhes bem interessantes sobre o enredo.
Este é um texto que eu havia publicado no antigo blog do FFRPG e mesmo não sendo diretamente voltado ao sistema, achei que tinha de compartilhar com todos os fãs que ainda não tinham lido essa história fantástica

2 thoughts on “A Dama que Viaja pelo Planeta”

  1. Realmente é muito interessante! Eu sempre achei que Cloud deveria namorar Aeris, mesmo que ela fosse a antiga namorada do melhor amigo dele. Na época em que eu joguei pela primeira vez, eu n entendia quase nada de inglês e interpretava a história de forma totalmente errada, então na minha cabeça Aeris era a namorada de Cloud.
    FF VII foi o primeiro jogo que me fez chorar. Mesmo sem entender direito, quando eu terminei o primeiro CD eu havia me apegado de tal forma aos personagens e à aquele mundo incrível que eu simplesmente n pude aceitar a morte de Aeris! Infelizmente, eu só tinha o primeiro CD (q um amigo meu havia me dado) e só fui terminar FF VII anos depois, usando um emulador para PC.
    Até hoje, eu ainda acho que Cloud e Aeris deveriam ter ficado juntos.

    1. O FFVII tbm foi um divisor de água na minha vida. Foi o primeiro RPG que joguei e foi quem me fez ver que o RPG era tão incrível. Até ahoje, 99% meus jogos são apenas RPGs
      Sobre o Cloud e Aeris, eu também torcia muuuuuito pra ficarem juntos e quando ela morreu, não imagina como chorei. Cheguei desligar o video game com raiva, mas voltei correndo minutos depois^^

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